É vedada a cópia de qualquer parte do material para uso comercial, mas que para finalidades científicas,

culturais e técnicas poder-se-á copiar partes, desde que solicitado ao autor e citando explicitamente a fonte.

 

VI - UMA POSIÇÃO CONTEMPORÂNEA

"Cada ser humano é um artista"

Joseph Beuys

 

Desde os anos vinte foram realizados, em muitos lugares e diversos países, “edifícios cheios

de gente", arquiteturas inspiradas pelos impulsos de Rudolf Steiner, a servirem iniciativas

antroposóficas - e também não-antroposóficas - em diversos campos de vida. Edifícios com

características próprias, diferentes das correntes dominantes, que refletem a identidade das

atividades culturais a outras que abrigam. O ponto de partida geralmente é o desejo do grupo

portador da iniciativa de variar um ambiente arquitetônico não convencional, não qualquer,

mas sim condizente, em harmonia com aquilo que o grupo pretende realizar, e com as

condições locais, do país, da cultura, do clima. Como fazer uma escola, um hospital onde se

praticam os impulsos de Steiner na pedagogia ou na medicina? Como reagir a situação,

organicamente com originalidade e sem cair em repetições? Ou, no caso de um cliente que não

optou pela antroposofia como criar simplesmente uma arquitetura mais apropriada, mais

humana, menos tecnocrata e formalista?

 

Para quem estuda a arquitetura Steineriana, e a situação atual, no limiar dos anos noventa,

outra pergunta torna-se premente: será que o impulso de Dornach tem atualidade ainda hoje?

Será que ele ajuda a resolver os nossos problemas? Será que ele e adaptável a setenta anos

de evolução cultural, a outros continentes, outros países com condições climáticas e tradições

diferentes?

 

Neste capítulo vamos apresentar alguns exemplos de grupos, de iniciativas, arquitetos que

respondem a esta última pergunta com um "sim" claro e determinado. A escolha foi feita entre

obras das décadas 70 e 80, com a finalidade não de dar uma imagem completa (que seria um

livro à parte) mas sim de mostrar correntes e fenômenos típicos e representativos.

O movimento das Escolas Waldorf, orientado segundo os impulsos pedagógicos de Rudolf

Steiner tem sido o portador principal da inovação arquitetônica em alguns países. P.ex. Na

Alemanhã - Esta pedagogia tem em consideração todas as faculdades do Ser Humano, dando

especial ênfase às artes que acompanharão a criança no seu desenvolvimento. Arquitetura,

modelagem, pintura, teatro e literatura, música, euritmia são integrados na vida diária da

escola, e refletem-se na parte funcional e estética da arquitetura escolar. O ideal subjacente é

a "obra de arte integral": a tudo se procura dar um cunho artístico, às vezes artesanal, e a

pedagogia torna-se uma "arte de educar" no fraseado muito usado por Rudolf Steiner. Além

disso, a arquitetura procura apoiar a criança nas suas diferentes fases de desenvolvimento,

consoante a sua idade, o que requere intensa colaboração - e compreensão mútua - entre

professor e arquiteto. - O impulso social joga um papel importante, também. A comunidade

escolar - professores, pais e amigos - muitas vezes participam ativamente na fase do projeto,

e na construção, trabalham nas obras no fim-de-semana ou nas férias, mesmo nos países onde

a pedagogia Waldorf vive em condições relativamente abastadas. O que a todos estimula é o

desejo de criar uma escola melhor e diferente, com um ambiente físico adequado; recorda-se o

entusiasmo coletivo e ativo que tornou a construção do primeiro Goetheanum possível.

Sem dúvida, muitas escolas Waldorf existem em ambientes convencionais ou provisórios - em

edifícios existentes e adaptados, ou em barracas, pavilhões pré-fabricados. Outras, das quais

apresentaremos quatro exemplos, assumiram o desafio de uma "arquitetura pedagógica" e

chegaram a resultados bem individuais.

 

A escola de ÜBERLINGEN, no sul da Alemanha Federal (Arq. Ogilvie e Bockemühl) reúne toda a

vida escolar por baixo de um telhado, de corajosa e dinâmica articulação plástica. Tudo está

em movimento: as convexidades e concavidades do telhado, o entrar e sair das fachadas e dos

volumes, a expansão e contração dos corredores que cria um ritmo espacial. Porém, a

 

contrapartida do movimento, a quietude e o repouso, também estão presentes: na equilibrada

composição do total, e no forte centro arquitetônico - e social! - que é o grande hall aberto em

quatro níveis, e o salão com palco. Aqui, como em muitas outras escolas Waldorf, a arquitetura

apóia o processo pedagógico dando uma forma diferente e individual a cada sala de aula,

conforme a idade dos alunos. Do mesmo modo, os espaços de circulação são de caráter e

gestos diferentes quando se trata de ser o dos pequenos, médios ou grandes. A escolha dos

materiais, e aconcepção global, são parcialmente inspiradas pelas grandes fazendas da região,

que tudo acolhem sob um único telhado: habitação, currais, palheiro, etc.

 

A primeira das escolas Waldorf, a de STUTTGART, fundada em 1919, construiu em 1975/77 um

edifício para o grande salão de festas, para aulas de artes, oficinas de ensino, e aulas do

colegial. (Arq. s Billing, Peters, Ruff). Este projeto, premiado várias vezes, é um bom exemplo

de como uma escola Waldorf se torna em verdadeiro centro cultural. Além das atividades da

própria escola, são raras as noites em que não há um espetáculo de euritmia, um concerto, ou

uma palestra no salão, para os quais a arquitetura proporciona as melhores condições, quer no

que respeita à acústica, quer à visibilidade interior. O tratamento escultural do arco do palco, a

pintura transparente em tons suaves de cor-de-rosa e azul-claros, os detalhes muito

cuidadosos tornam este salão convidativo para qualquer atividade artística ou cultural. A

fachada é surpreendente, porque embora de aparência monolítica e com uma atrevida

assimetria, não perde o equilíbrio da sua composição. A fachada traseira não existe, sendo o

edifício encostado as facécias duma antiga pedreira. Estruturalmente, tudo é apoiado por

grandes pilares subterrâneos que atravessam espessas camadas de entulho. Assim, a

construção monolítica revela o seu sentido duplo: esteticamente, o exterior faz transparecer

uma qualidade de "rocha" que responde ao gênio do lugar, e tecnicamente, a estrutura

monolítica garante estabilidade e ausência de fendas mesmo com a fundamentação difícil.

Os mesmos arquitetos realizaram um teatro e centro cultural municipal, na cidade

LÜDENSCHEID, com dimensões e características comparáveis, tendo sido igualmente bemrecebido

pelo público.

 

As linguagens formais tanto em STUTTGART como em ÜBERLINGEN baseiam-se num tipo de

metamorfose que vive nas transições graduais duma forma para outra, duma zona do telhado

ou da fachada para outra, talvez comparável, neste sentido, com a casa "Duldeck" "Motivos",

ou seja, temas formais características, aparecem, mas por assim dizer volatilmente, sempre

em transição.

 

A escola de Nant-y-Cwm, na Grã-Bretanha (Arq. Christopher Day) sirva de exemplo para

muitas escolas que nasceram em condições econômicas difíceis exigindo um espírito pioneiro

permanente, e uma fé de conseguir o impossível. ela se situa numa zona remota do País-de-

Gales, de economia fraca e de elevada percentagem de desemprego. O núcleo físico era uma

velha e abandonada escola de aldeia, que foi adaptada e aumentada ao longo dos anos,

nomeadamente com trabalho voluntário da parte dos pais, quarta-feira sendo o "dia da obra":

quem pode, vem e arregaça as mangas. No verão organizam-se encontros internacionais, em

que os trabalhos se juntam à atividade artísticas, conferências e estudos. As belas portas com

fechaduras artesanais, tudo em madeira, foram feitas por um carpinteiro desempregado.

Muitos acabamentos são toscos, devido a mão-de-obra não-profissional. o ambiente caloroso

do "feito-a-mão" é fruto dum esforço de transformar a desvantagem da escassez econômica

numa chance de criar um ambiente individual e original, em que o processo social dá lugar a

criatividade de cada um. Houve cuidado também na escolha de materiais não-poluente e nãotóxicos.

A escola de DRIABERGEN na Holanda (Arq. s ORTA Atelier) e resultado dum processo social

intenso e consciente entre professores e arquitetos, cujo método foca não só as questões

racionais ou quantitativas (programa de espaços, exigências funcionais, etc.) mas sobretudo a

parte intuitiva e imaginativa (o caráter, a atmosfera que se pretende criar no edifício e nas

suas divisões principais, o gênio local, a integração na paisagem, etc.). Os jovens arquitetos

assistiram regularmente às aulas, durante meses, e tiveram longas e numerosas sessões de

pintura, desenho, modelagem, de exercícios de observação, com os professores e pais. Assim

forma-se uma imagem pormenorizada e clara das qualidades pretendidas no futuro edifício; os

aspectos "não-racionais" tornam-se vivência comum de todo o grupo, são elevados a um nível

mais objetivo e acessível para todos, e o ponto de partida já não é a mera preferência pessoal.

Assim o arquiteto já não é o indivíduo genial mas uma personalidade que põe a sua

criatividade ao serviço dos outros. pelo ORTA Atelier foram realizados também, recentemente e

seguindo o mesmo método, a remodelação de um hospital municipal de pediatria, e uma

pequena urbanização, com participação intensa e entusiástica de enfermeira, médicos, e

futuros moradores.

 

Na arquitetura não-escolar, são de realçar certas obras do arquiteto dinamarquês Erik

Asmussen, em Järna, Suécia. O "Seminário Rudolf Steiner", em Järna, e um centro de

formação para adultos cujos edifícios foram realizados um a um, ao longo dos anos: estúdio de

Euritmia, biblioteca, a "amêndoa" (estúdio de música), o centro comunitário, e a "serpente

comprida" (lar de estudantes). Os materiais, dominantemente madeira, e telhados de chapa,

são os habituais na Suécia rural. Cada um dos edifícios é composto de volumes horizontais,

destinados principalmente a habitações, e de volumes verticais, sobretudo para ensino e vida

comunitária. Dentro de uma linguagem formal dominantemente geométrica e cúbica, cada

edifício tem o seu caráter distinto e individual, para o qual contribui também a cor viva de todo

o exterior. São tons de azul, esverdeado na biblioteca, avermelhados no centro comunitário, e

às vezes completado pela cor complementar, o cor-de-laranja.

 

Lembramos que em Überlingen e Stuttgart, a metamorfose está no fluxo, na transição de uma

forma para a outra. Em Järna, a metamorfose, recordemos à propósito o tema da cúpula

dupla, em Dornach, que se metamorfoseia, e "faz" as composições volumétricas do atelier das

gravuras de vidro, do "Heizhaus", da casa "De Laager". Em Järna, o tema é o encontro de

volumes horizontais e verticais, donde surgem os cinco edifícios, cada um com sua qualidade

especial. A "Serpente Comprida", com os seus "braços" abertos, e as salas de estar em cada extremidade;

o centro comunitário onde os "braços" se fecham, fazendo um anel a volta do pátio interior,

composto de quatro alas: o refeitório, a cozinha, a loja de produtos artesanais, e as torres

gemidas com salas de Euritmia. Mais uma vez, não se trata do mero prazer estético, mas de

uma procura da identidade de cada edifício, capaz de exprimir a sua função, o seu uso. -

Passeando no terreno, por entre estas construções que parecem os diversos membros duma

família, os volumes e as cores captam a primeira atenção, mais as "relações familiares" não

ficam por aí. Também nos detalhes há metamorfoses por descobrir; janelas, balaustradas,

chaminés entram em diálogo mútuo, num jogo sutil de semelhanças e diferenças. Estamos na

Suécia, e os impulsos de Dornach reaparecem, transformados, duma maneira fresca e original,

sem quaisquer formalismos copiados, e totalmente adaptados as realidades do pais.

Outros projetos notáveis de Asmussen, em Järna, são o hospital "Vidarkliniken", recemconcluido,

cujo centro e um jardim medicinal e terapêutico, e dois edifícios industriais vizinhos

um ao outro: um celeiro e moinho, e uma padaria.

 

Um projeto recente e espetacular é o centro administrativo do Banco NMB, em Amsterdam,

Holanda (Arq. Ton Alberts e Sócios), onde trabalham 2500 pessoas. Foi para com estas

pessoas que o arquiteto teve a melhor consideração e cuidado, proporcionando-lhes um

ambiente agradável e individual, e evitando a monotonia e esterilidade excessivas de quase

todos os edifícios administrativos modernos. Os empregados do banco colaboraram desde o

início no processo do projeto, e tomaram decisões importantes, como o controle individual da

temperatura em cada divisão, o tipo simples de climatição a usar, e as janelas tradicionais

para abrir e fechar. As áreas de escritório são divididas em pequenos grupos. Halls, foyers

ambulatórios, escadas são amplos, espaçosos, bem iluminados, e cheios de pormenores

atraentes: "poços" de luz verticais, iluminados por claraboias e com escadarias convidativas

(que desencorajam o uso dos elevadores), muita vegetação, e numerosas obras-de-arte:

relevos metálicos, mosaicos, composições de vidro colorido, e até córregos de água.- Nos

poucos meses da sua existência, este grande complexo tem-se tornado uma atração para o

público e o mundo profissional, de forma que já é preciso marcar visitas com meses de

antecedência.

 

Cabe aqui uma observação final: será que construir "assim" é caro? Todos os exemplos aqui

apresentados convidam a presença de outras artes, preferem a peça individualmente

desenhada e fabricada ao elemento pré-fabricado e estandarizador, requerem boa mão-deobra,

fazem escolhas consideradas onerosas, na óptica convencional. O fato surpreendente,

mas comprovável é que p.ex. o Banco NMB por preços perfeitamente normais para construções

do gênero, e que a Alemanha Federal raramente se conseguem construir escolas com um preço

por m2 ou m3 tão baixo como são habituais nas construções das escolas Waldorf. Por quê?

Três fatores principais são de realçar. Um é que uma planta não-ortogonal muita vez resolve

as exigências espaciais dadas com menos metros quadrados. Numa sala de aula p.ex., os

quatro cantos geralmente não têm utilidade, e assim uma forma não-retangular pode

economizar metros quadrados. Espaços de circulação podem ser dimensionados exatamente

conforme os fluxos de movimento que neles acontecem, ao invés de partir de larguras

fixas...Outro fator e que pelo vistos as idéias convencional de igualar a construção préfabricadas

com preços baixos nem sempre corresponde a realidade. E finalmente, o empenho e

o esforço das pessoas responsáveis pela obra também contam. Por outras palavras: pouco

dinheiro não significa necessariamente poucas idéias, e um orçamento limitado não precisa de

limitar a criatividade.

 

 

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