É vedada a cópia de qualquer parte do material para uso comercial, mas que para finalidades científicas, culturais e técnicas poder-se-á copiar partes, desde que solicitado ao autor e citando explicitamente a fonte.

 

II - A obra das mil mãos

Dass sich das grösste Werk vollendte Genügt ein Geist für tausend Hände!

(A fim de terminar a obra imponente para mil mãos basta uma mente)

J.W.Goethe, "Faust"

 

A realização do primeiro Goetheanum demonstra-nos que "fazer arquitetura não é só o resultado final, a "arquitetura feita", mas também o processo, o "como fazer" - aquele trabalho de meses ou anos que envolve muitas pessoas e que pode ser cansativo, maçador, ou criativo, inspirador... A arquitetura serve ao homem, ou seja, em termos da preocupação central de Rudolf Steiner, ela procura apoiar e manifestar a aspiração espiritual do homem. Nesse sentido, um edifício pode, sem dúvida, servir bem ou menos bem, de acordo com as suas qualidades estéticas e práticas. Mas a execução da obra e as vivências e aprendizagens que ela proporciona podem já responder bem menos bem a esta espiritualidade do ser humano. O homem pode perder-se no trabalho, ou encontrar-se a si próprio!

Foi a esse aspecto que Rudolf Steiner deu bastante importância, não em teorias programáticas, mas na prática da obra, que é testemunho da vontade de impregnar de espírito próprio, de animar com igual criatividade artística o projeto a realizar e o processo da sua realização. E note-se que a participação criativa dos operários ou dos futuros moradores na obra tem merecidamente alguma importância na arquitetura recente. São numerosos os relatos entusiásticos de pessoas que trabalharam em Dornach naqueles anos *5, e que participaram da vida cultural e artística que nasceu da obra, como uma "universidade" no sentido original do termo.

A obra destaca-se no contexto da arquitetura do nosso século, mas não é de menor importância o ambiente humano e cultural em que ela nasceu.

Naquela aprazível colina em Dornach, perto de Basiléia, na Suíça, que marca o meio termo entre o imenso vale povoado e o alto das montanhas ao fundo, começou a levantar-se, no início de 1914, um gigantesco esqueleto de madeira, envolto de andaimes que já aparentavam uma arquitetura. Dimensão, materiais e forma eram excepcionais. Um invólucro de 60000 m3 estava sendo preparado, com um comprimento de 80m e l8m de altura.

A base era um rés-do-chão em concreto armado que servia de base para a estrutura em madeira. Concreto armado! Era raro, na altura, o uso desse material na arquitetura erudita, que se limitava, na maior parte dos casos, ou às obras de engenharia (pontes, fábricas, etc.) ou a uma função estrutural, invisível, pois era revestida com outros materiais. Aqui, o concreto assumiu o seu papel estrutural, sem disfarce, e adquirindo um tratamento formal fluente, de curvas e arcos. A fôrma já prenunciava o aspecto final e o único acabamento posterior seria garantido pela picadeira alisando a superfície.

Um elemento central da estrutura em madeira eram dois espaços cilíndricos, cobertos de cúpulas interpenetrando-se, com raios desiguais - na proporção de 4:3. A orientação era cuidada, virando-se a cúpula pequena - o palco - para o oriente, e a

É vedada a cópia de qualquer parte do material para uso comercial, mas que para finalidades científicas, culturais e técnicas poder-se-á copiar partes, desde que solicitado ao autor e citando explicitamente a fonte.

 

grande - o auditório - para o poente.

A primeira coisa a aparecer eram as enormesarmações das paredes de contorno, a serem forradas de madeira, de ambos os lados.

Mas, na grande oficina de carpintaria, ao lado, preparavam-se simultaneamente 26 colunas em diversas madeiras finas e maciças - faia, freixo, cerejeira, carvalho, olmeiro, ácer e bétula - de hastes pentagonais e de bases e capitéis poligonais. As arquitraves também eram pré-fabricadas com grandes elementos de três metros de altura, sendo inúmeras pranchas da mesma madeira coladas e pregadas uma em cima da outra, deixando transparecer mesmo no fosco, sem o acabamento final do talho uma linguagem formal rica, marcada por um forte sentido escultórico, quer nas arquitraves, quer no entablamento.

Quase 300 operários artesãos cuidavam que as obras progredissem a passo rápido, preparando o terreno para muitas dezenas de voluntários provenientes de 18 países diferentes, que executavam acabamentos artísticos, com maço, goiva e pincel. Só o número de entalhadores chegou a 70! Havia muito trabalho para eles: bases, capitéis e arquitraves em ambas as cúpulas, o interior do vestíbulo e de outros espaços secundários, e mais tarde grande parte das fachadas, que eram executadas com a mesma técnica que foi aplicada nas arquitraves do interior.

Graças ao intensíssimo trabalho, os volumes principais do Goetheanum já estavam erguidos no verão do mesmo ano, e no dia 12 de outubro foram retirados os andaimes do interior do salão, da "cúpula dupla". Neste momento, pela primeira vez, essa composição espacial estava à vista, com os traços largos da sua decoração escultural.

A seguir, outros andaimes eram montados para se avançar com a talha fina.

Durante este ano, Rudolf Steiner estava muito presente na obra. A complexa tarefa da pormenorização, do desenho, do cálculo, da organização da obra era resolvida por uma pequena equipe de arquitetos e engenheiros, trabalhando conforme as linhasmestras

dadas por Steiner em maquete, esboço ou verbalmente. Mas ele também

talhava, instruía e acompanhava os entalhadores, estando sempre presente, olhando,

respondendo, corrigindo, sugerindo e demonstrando novas soluções. A linguagem

formal-escultural dos capitéis, bases, arquitraves - a maleabilidade orgânica, a

processualidade que permitia ao material morto o aspecto de algo que "vive", "atua" -

tudo isso eram inovações radicais, que exigiram uma intensa atividade interior - não

só exterior - da parte das pessoas que aí trabalhavam. As tarefas eram de descoberta

e de aprendizagem constante e a todo o momento era preciso vencer barreiras

interiores, pois nem sempre a bagagem de hábitos, gostos e predileções que as

pessoas trazem consigo - muitos entre eles pintores, escultores ou músicos - permitia

um fácil e suave mergulhar na nova linguagem. Rufolf Steiner respondia e explicava

pacientemente, recebia com abertura e gratidão os impulsos que os colaboradores lhe

traziam, e parecia ter na consciência o bem-estar e o desenvolvimento pessoal de

cada um deles.

A partir de junho de 1914, muitas vezes as ferramentas eram postas de lado, e todos

se reuniam na carpintaria, sentados no chão ou nas bancas, para ouvir Rudolf Steiner

falar sobre a nova arquitetura que se pretendia inaugurar.*6 Embora vastas

perspectivas se abrissem, com indicação de como certos fenômenos a nível

cosmológico e antropológico se podem refletir em configurações arquitetônicas,

também era clara a necessidade de modéstia e humildade perante a tarefa de criar

novas bases para a arquitetura contemporânea (Steiner mais tarde não se cansaria de

afirmar que reinava um ambiente de espontaneidade, liberdade - às vezes beirando o

caos!, em que a criatividade individual era acolhida. Por exemplo, ele nunca exigia

que as formas esculturais correspondentes do lado direito e esquerdo do salão fossem

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pedanticamente simétricas, e ele considerava o Goetheanum um edifício muito

imperfeito!) - e a visão de uma futura arte de construir, que, por si, pela sua

harmonia com o homem e o universo, contribuiria para a educação e a moral do

homem. Mais tarde, de 1922 a 1924, Steiner deu dezenas de palestras aos operários

da obra, tendo eles escolhido os temas e feito inúmeras perguntas. Estas sessões

fizeram parte do horário de trabalho.

Os imensos recursos financeiros para a construção do primeiro Goetheanum

provieram inteiramente de donativos particulares.

Rapidamente uma população de antropósofos cresceu em Dornach, composta por

pessoas que vinham dos quatro cantos do mundo. As atividades eram múltiplas,

ligando a pesquisa esotérica aos campos mais diversificados da vida, nomeadamente

as artes, e de fato todas as artes estavam presentes, recebendo novos impulsos.

Inicialmente, em 1913, a idéia de construir surgiu da necessidade de haver um teatro

apropriado para as peças iniciáticas que Rufolf Steiner tinha escrito e posto em cena

poucos anos antes. Agora, uma arte toda nova de recitação e declamação era

desenvolvida, e numerosas cenas do "Fausto" de Goethe eram apresentadas. Nasceu

a "Euritmia", uma arte que procura expressar com gestos e movimentos a parte

invisível, etérica, da fala e do canto humanos. Rufolf Steiner mais tarde explicou que

a Euritmia não poderia ter sido desenvolvida sem o trabalho simultâneo da arquitetura

e das esculturas do Goetheanum! - Vários músicos apoiavam o trabalho intenso de

palco com novas composições. E muitas pessoas sentiam que até a linguagem formal

do edifício tinha, à sua maneira, uma qualidade bem musical. O interior das duas

cúpulas era pintada por Rudolf Steiner e outros artistas, numa nova técnica de

aquarela em cores intensas, radiantes, luminosas, cujo ponto de partida era a própria

vida e o caráter das cores, e não o desenho, os contornos, o conteúdo temático ou

simbólico. Grandes vitrais eram feitos para o salão, espessos e monocoloridos,

vermelho, cor-de-rosa, cor-de-lilás, azul, verde - gravados com algo semelhante a

uma broca de dentista, fazendo variar a espessura do vidro para que a própria luz

criasse o desenho.

A partir de 1915, Rudolf Steiner e a escultora inglesa Edith Maryon criaram uma

estátua de madeira para ser colocada no extremo-oriente do salão, ao fundo do palco,

sendo o ponto focal de toda a sua configuração espacial. Esta estátua representa o

drama da procura de equilíbrio, entre duas forças adversárias: "Ahriman"

endurecedor, pedântico, materialista; "Lúcifer" sonhador, sedutor, irrealista; e no

meio está o homem, de postura altiva e nobre, de passo avante. Cada um daqueles

dois é representado duas vezes, com gestos esculturais opostos em cada pormenor,

que expressam, de imediato, as duas qualidades respectivas. Ser homem, no sentido

profundo, segundo a filosofia antroposófica, conseguir esse equilíbrio e essa postura

entre os dois pólos, assim se justifica o posicionamento central da estátua do

Goetheanum.

Resumindo: todas as artes eram acolhidas e estavam presentes na arquitetura do

Goetheanum: a Euritmia (dança), o drama, a música, a pintura e a escultura, todas

inspiradas pela mesma fonte, e inseparavelmente unidas.

As múltiplas atividades artísticas em Dornach continuaram até os anos vinte,

desdobrando-se cada vez mais. Porém, a eclosão da primeira guerra mundial, em

1914, representou um golpe sensível na evolução do trabalho. Embora a Suíça fosse

terra neutra, Dornach fica a poucos quilômetros da fronteira franco-alemã, e ao

batucar de mãos e goivas começou a misturar-se o barulho dos canhões, deitando

sombras pesadas sobre o ambiente de trabalho que até então tinha sido de alegria e

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confraternização. Muitos foram chamados para os exércitos dos respectivos países,

trocando uma obra de amor e de reconciliação entre povos por batalhas sangrentas e,

em muitos casos, a própria morte. Mas o trabalho em Dornach continuou, com

intensidade muito reduzida.

Após a guerra, a Europa tornou-se diferente, e baseado num Goetheanum já quase

acabado, o impulso antroposófico começou a penetrar em novos domínios da vida,

como a pedagogia, a medicina, a agricultura, e a ciência social. Não sendo, contudo,

fácil salvaguardar a substância interior, espiritual, e a integridade e coerência dum tal

movimento em expansão de milhares de membros em muitos países, surgiu

naturalmente uma reação, que se tornou algumas vezes oposição ou, até‚ inimizade.

Na noite de Ano Novo de 1922 para 1923, a colina de Dornach transformou-se em

cenário de tragédia: pouco depois de uma palestra de Rudolf Steiner no salão grande,

foi descoberto fogo - fogo posto - já em estado avançado e impossível de controlar.

No meio da noite, as chamas começaram a aparecer no exterior, iluminando a

paisagem noturna coberta de neve, e desenhando por poucos momentos, e pela

última vez, a arquitetura das colunas e arquitraves em traços rubros e labaredas. De

madrugada, a "obra das mil mãos", singular e irrecuperável, estava reduzida a cinzas.

Referências:

5) - Margarita Woloschin: "Die grüne Schlange", Stuttgart, 1954.

- Assia Turgenieff: "Erinnerungen an Rudolf Steiner", Verlag Freies Geistesleben,

Stuttgart, 1972.

- Alfred Hummel: "Anekdoten aus dem Dornacher Baubüro", Revista "Mensch und

Baukunst", Caderno 3/1972.

- Marie Steiner-von Sivers: Prefácio de "Wege zu einem neuen Baustil", Verlag Freies

Geistesleben, Stuttgart, 1957; "Ein Leben für die Anthroposophie", p. 320-334, Rudolf

Steiner Verlag, Dornach, 1989.

6) Cinco conferências "Wege zu einem neuen Baustil", Dornach, 7.6 a 26.7.1914,

Verlag Freies Geistesleben, Stuttgart, 1957. Em inglês: "Ways to a new Style in

Architecture", Anthroposophical Publishing Co., London, and Anthroposophic Press,

New York, 1927. Em francês: "Vers un nouveau style dans l' Architecture", Triades,

supplément au No. 28, Paris, 1969.

Citação II/1

"A verdadeira harmonia da alma só pode ser vivenciada em lugares onde os sentidos

do homem encontrem formas, feições e cores que reflitam aquilo que a alma conhece

como os seus mais preciosos pensamentos, sentimentos e impulsos."

(Rudolf Steiner, Lucifer Gnosis, 1907)

Citação II/2

"Talvez o nosso edifício, com que pretendemos apenas um primeiro passo primitivo,

não alcance tudo. Entretanto, quando manifestar-se plenamente na cultura da

humanidade aquilo que esta obra pretende, e que está crescendo à nossa volta como

se fosse por si própria, no nosso esforço de cumprir a missão que os seres espirituais

É vedada a cópia de qualquer parte do material para uso comercial, mas que para finalidades científicas,

culturais e técnicas poder-se-á copiar partes, desde que solicitado ao autor e citando explicitamente a fonte.

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nos deram, e quando finalmente estas intenções se tornarem realidade e as idéias de

tais obras forem seguidas por outros, então as pessoas que entrarem pelos portais de

tais obras-de-arte, ficando impressionadas pela mensagem artística e entendendo a

sua linguagem destas, nunca mais farão mal ao próximo, nem nos corações nem no

intelecto. As formas artísticas ensinar-lhes-ão o amor, e as pessoas aprenderão a

conviver em paz e harmonia com o próximo. As formas encherão os corações com

esta paz e harmonia. Tais obras atuarão como legisladores, e coisas inalcançáveis

através de medidas exteriores serão conseguidas por causa das formas dos nossos

edifícios.

Meus caros amigos, tantas pessoas cogitam sobre medidas exteriores para eliminar

deste mundo delitos e criminalidade; porém a cura que futuramente transformará o

mal em bem, no desenvolvimento da humanidade, é a Arte verdadeira, que

introduzirá nas almas humanas aquela espiritualização que, através de formas

arquitetônicas e outras que envolvem as pessoas, as motivarão, caso tenham a

tendência para mentirosos, a deixarem de mentir; caso tenham a tendência para

perturbar a paz do próximo, a deixarem de fazer isso. Os edifícios começarão a falar

numa linguagem que hoje em dia ainda está fora do alcance da imaginação das

pessoas" (Rudolf Steiner, 17.06.1914).

 

 

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