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(Construir para crianças)

Como a criança percebe e vivencia a sua moradia, a creche, a sala de aula de sua escola, enfim o meio arquitetônico em que vive e estuda? Esta pergunta levaram Frank Sturkenboom e Ângela Raanhuis em busca de pesquisa e propostas de soluções, no livro de sua autoria, publicado na Holanda e intitulado, Criança e Moradia. Como base de analise utilizaram-se da forma de entrevistas com arquitetos do ORTA-Atelier, sendo estes, Maarten Camman, Marien Faasse e Michael Mösch.

O texto redigido a seguir foi elaborado de forma livre, destacando as passagens essenciais do referido livro, com o intuito de colaborar com idéias e parâmetros para obras com a finalidade principal voltada à educação e/ou bem estar da infância.Na orientação e busca de idéias para o desenvolvimento de projetos arquitetônicos de atividades ligadas à infância (creches, escolas e residências) é de se aconselhar aos profissionais envolvidos nesta área, reviver e despertar em si o ‘ser criança’.

Toda pessoa adulta transpôs a fase da infância e tem experiências vividas que podem ser resgatadas da recordação. Paralelamente mostra-se necessário incluir no levantamento de áreas necessárias e de organograma, na etapa de análise que antecede o projeto, um processo de ‘formação de imagem’. Seu caráter de pesquisa é contemplativo com o intuito sempre presente, de trazer à tona e inteirar, as necessidades específicas da criança, no processo global de desenvolvimento projetual arquitetônico. Estas necessidades não estão restritas unicamente às questões materiais e de utilização de ambientes, mas também abrangem as qualidades que apóiam e incentivam o desenvolvimento anímico e espiritual.

Construir para crianças não é uma tarefa simples. Ao deslocarmos e canalizarmos o leito de um rio, a água que corre pelo canal escavado é a mesma que anteriormente fluía por naturalidade, porem o leito original, suas curvas sinuosas e seu meandrar característico não existem mais. Algo de essencial foi perdido. Fato semelhante pode ocorrer ao construirmos obras destinadas às crianças. Tal como o canal para o rio, estas obras podem prejudicar e descaracterizar o curso natural do desenvolvimento na infância. Quando atribuímos aos espaços soluções demasiadas de segurança, ventilação e higiene, por exemplo, questões estas, que interessam principalmente nós adultos, desconsideramos necessidades intrínsecas da criança. Genuinamente ela necessita um entorno que incentiva e faz fluir sua fantasia. Se esta vontade autêntica não pode ser saciada ela sai em busca de outros espaços acarretando inevitavelmente conseqüências para seus educadores.

Como poderíamos elaborar projetos de arquitetura e ambientes adequados, que atendem o ‘ser criança’ com responsabilidade? Como nos inserir de fato no ‘mundo’ da infância?

Como já mencionamos, critérios e parâmetros para projeto são em sua maioria, frutos de preocupações de educadores e pais, adultos, portanto. Estes, na maioria dos casos, baseiam-se no controle máximo sobre as atividades que a criança desenvolve. A questão de fato é relevante; os interesses que nós adultos temos correspondem às da criança?

Ao impor as nossas ponderações resultantes de preocupações exclusivamente racionais, podemos, sem má intenção, reprimir a autenticidade da infância. Quando desbrava, quando aos poucos descobre o mundo, a criança se manifesta principalmente na ação. Ela desenvolve seu corpo e adentra o mundo através da atividade volitiva. Mesmo quando sentada e em repouso, ouvindo de olhos arregalados uma história, um conto de fadas em sala de aula, a atividade em questão é interna, e anímica. Ela percorre as imagens, passa por aventuras, até mesmo assimila transformações.O contexto desta atividade não depende exclusivamente das palavras ou frases que a professora transmite, mas a criança complementa-o e desenha-o em sua alma. É o início, através da fantasia, do processo de criação, capacidade genuinamente humana dentre s seres que habitam a terra. Este processo, por sua vez somente é possível com desempenho de ação. Ao agir com fantasia a criança inevitavelmente cria, sempre de acordo com os parâmetros de seu mundo infantil. Estamos frente a conceitos relacionados de forma intima com o ser de toda criança sadia: fantasia, criatividade, atividade anímica e lúdica e oportunidade para o improviso. Estas manifestações unidas podem ser representadas em uma única que conseqüentemente é a característica mais autêntica da imagem ‘ser criança’, entreter-se no brincar. 

É preciso disposição e força de identificação na fase de orientação do projeto para ir de encontro e criar condições para que possamos oferecer qualidades de ambientes na arquitetura que propiciem e apóiem tais reivindicações. Concomitantemente podemos constatar que não somente a fantasia e seus correspondentes necessitam de um ambiente favorável para seu pleno desempenho. A criança carrega consigo o que podemos denominar, espírito aventureiro. Uma vontade sempre presente de conquistar, descobrir e desbravar o meio em que vive. Esta qualidade também pode ter o seu reflexo no espaço em que permanece e brinca. A arquitetura e o urbanismo que não contemplam esta naturalidade do desenvolver da infância por serem determinadas principalmente de avaliações intelectuais pode ocasionar decepção na alma da criança. Ela não se sente correspondida em sua forma de ser criança. Por ventura este sentimento, esta vivência pode desencadear uma pequena revolta. Se este processo, no relacionamento com seu entorno, se repetir continuamente pode fazer com que emane da alma a atitude de violência. A arquitetura racional, resultante de um processo predominantemente cerebral, revela para o adulto uma beleza correspondente. Para a criança porem, ela é vazia e dessecada. Vemo-nos frente ao grande desafio, projetar ambientes que consideram o ‘ser criança’ e tudo que está relacionado ao seu desenvolvimento físico, anímico e espiritual. Para atender tamanha tarefa apoiamo-nos em nossos projetos na Imagem do Homem desenvolvida e relacionada no conhecimento da Ciência Antroposófica.Mencionado anteriormente, queremos frisar, no contexto da arquitetura orgânica-antroposófica, o processo de formação de imagem, que antecede o desenvolvimento do projeto propriamente dito. Consiste de um método de trabalho que visa envolver os futuros usuários da obra no processo criativo da arquitetura. Em se tratando de projetos de espaços destinados à criança, a formação de imagem considera as capacidades intrínsecas das quais algumas foram mencionadas acima. A análise das características da infância se apóia no método da observação contemplativa. Leva-se em consideração as fases de desenvolvimento no processo de crescimento. Como questionamento central está presente nesta fase de reconhecimento: Caracterizar qualidades que permeiam o ambiente, fomentam e apóiam a criança em seu percurso de crescimento e desenvolvimento. Entre o mundo de experiências e vivências da fase adulta e da criança existe sem dúvida uma enorme diferença. Isto nos leva ao fato de jamais podermos admitir, a considerar a criança como sendo um pequeno adulto. Simplesmente adequar a arquitetura à medida física da criança não passa de uma mera caricatura se relacionada ao verdadeiro projetar e construir para a infância.

Já vimos que a pessoa adulta busca em seu espaço construído principalmente qualidades relacionadas à funcionalidade, objetividade, utilidade e redução de locomoção entre um ambiente e outro. Ao projetar e construir para a infância vemo-nos frente ao apelo, para que seja contemplado nos ambientes o estímulo ao desenvolvimento da fantasia e da criatividade. Atendendo este requisito básico oferecemos à criança a possibilidade de se reconhecer como sendo parte integrante do mundo em que vive. O processo de formação de imagem consiste na abordagem de quatro temas de trabalho e pesquisa. A biografia da moradia revela experiências que podem ser agregadas à substância qualitativa de fundamentação do futuro projeto. É o momento em que podem ser consideradas as vivências marcantes, também da infância, quanto ao espaço construído. Elas desvendam a relação que temos com a arquitetura. Concomitantemente com o primeiro tema, a qualidade do ambiente visa caracterizar qualitativamente os espaços da futura obra.

Empenhamo-nos na busca de qualidades que permeiam o ambiente no sentido de apoiar as atividades a serem desenvolvidas em seu interior. Formas de espaços, gestos, cantos e proporções, também as cores aplicadas nos elementos que constituem os ambientes agregam-se de forma harmônica aos materiais aplicados na obra. A fenomenologia do terreno é o terceiro tema de trabalho. Uma atividade de observação contemplativa e conjunta entre os futuros usuários e o arquiteto, que visa discernir as qualidades características do local da obra e de seu entorno. A vegetação, o relevo, a paisagem, seu posicionamento frente ao sol e ventos mais abundantes e também o modo como futuramente iremo-nos aproximar do local engloba o escopo deste levantamento. Por fim com o tema aspectos práticos e quantitativos buscamos centrar e delinear as questões de utilização no dia a dia da futura obra. Tamanho de espaços, a funcionalidade e o sequenciamento de atividades a serem exercidas na futura obra serão abordados nesta fase do processo. Assim encerra-se a formação de imagem com relatórios de conclusões programáticos que constituem a base do projeto a ser desenvolvido. Em caso de projetos destinados à criança cabe a nós a responsabilidade de envolvê-la no decorrer dos trabalhos. Para evitarmos qualquer forma impositiva quanto às propostas de soluções podemo-nos auxiliar de dois instrumentos básicos no processo de formação de imagem. Mais uma vez a observação contemplativa pode desvendar segredos até então pouco considerados. A própria natureza da criança manifesta sua real necessidade material, anímica e espiritual.

O segundo instrumento consiste, já foi mencionado anteriormente, em despertar em nós o ‘ser criança’ e intencionar nas decisões que conduzem o processo projetual, o que de fato para a criança possa ser bom, belo e verdadeiro. Não se trata de irmos à busca de propostas de soluções com o intuito de satisfazer o gosto da criança. Nossa responsabilidade é oferecer condições de desenvolvimento do despertar pleno para com a vida. A criança quer inserir-se no contexto do mundo para que, em sua fase adulta, possa compartilhar e contribuir com vigor e disposição às transformações que a vida exige.Na elaboração do projeto arquitetônico precisamos levar em consideração o momento de definição da materialização da obra. Os materiais devem ser adequados. Sem a intenção de elevar os custos finais da obra podemos atender ao fato de se tratar de um objeto de utilização apesar de suas proporções.

A criança sempre apalpa e sente, prova o material empregado. É preciso analisar onde e como empregar os materiais de acabamento considerando a sua superfície e textura quanto à sensação que esta transmite de duro/mole, frio/quente, áspero/liso e assim por diante. No final, quando da última etapa da execução da obra, serão aplicadas a cores em paredes, em forros e caixilharia. Em ambientes específicos para crianças é de se aconselhar, adequar as cores sempre quando possível, à idade correspondida. A utilização de camadas aquareladas sugere transparência da parede e proporcionam resplandecência ao ambiente.

Em creches e salas de jardim de infância a cor ‘flor de pêssego’ em tons ‘pastel’ fomenta o aconchego e o acolhimento que a criança necessita na respectiva fase da vida. No avançar da idade as cores a serem sugeridas vão através do ‘laranja’ ao amarelo, verde e aos 11 anos ao azul que delimita em termos gerais o fim da fase da infância e conseqüentemente o início da puberdade.Uma forma especifica de espaços pode ser contemplada com mais facilidade quanto maior for a área construída em questão.

A sala de aula do ensino fundamental, a sala central da creche e a sala de jardim de infância podem ser projetadas considerando sempre a sua utilidade específica. A forma do espaço atende às necessidades levantadas no processo de ‘formação de imagem’ e busca contemplar a atividade nela exercida. Em espaços menores, por exemplo, o dormitório em uma residência unifamiliar, a execução de uma forma específica torna-se mais difícil quando considerada sua área total disponível. Quanto aos espaços que compõem uma residência precisamos também atender ao fato que a criança cresce fisicamente e se transforma animicamente no decorrer do tempo. Uma forma especifica, adequada a certa idade, neste caso torna-se desprezível, pois o objetivo principal quanto à utilidade se altera no passar do tempo. Em contrapartida a sala de jardim de infância com o seu ambiente propício não necessita de alterações.

A criança ao atingir certa idade sai deste contexto para iniciar a fase de escolaridade em outro espaço apropriado e correspondente à sua nova situação de vida.Ao observarmos a criança atentamente podemos constatar que a expressão abstrata na arquitetura não lhe transmite mensagem de valor agregado. Para ela a expressão ‘limpa’ e com esta as idéias que se originam de uma criatividade predominantemente intelectual é vazia e a induz ao tédio. A arquitetura abstrata em geral também não apela ao desenvolvimento do respeito para com o objeto em questão. Esbarramos aqui com questões que originam na alma humana às tendências que causam ocasionalmente a pichação de obras e o vandalismo.Sem a intenção de generalizar ou propor soluções fechadas poderíamos listar, como sendo qualidades assimiladas ao ambiente infantil, as seguintes características:

espaço com identidade
acolhimento
aconchego
espaço com polaridades
propício para relações e contatos
integridade social
propício para o desenvolvimento da fantasia
aventureiro e desafio
transpor limites
diversidade
orientação


Possibilitar contato com os elementos terra, água, ar e fogo, a criança observa e imita. O mundo e os educadores são para ela referências concretas, parâmetros em seu processo de vida. Assim também o espaço em que vive e progride, as formam e criam. Neste contexto L. Mees exemplifica a educação da seguinte forma: ‘Educar é em sua essência, dar continuidade, no contexto terrestre, à atividade criadora divina’.

A criança ao nascer pode ser comparada à semente de um vegetal. Seu feitio é incompleto, a arte de educar oferece as condições para o seu desabrochar pleno e manifesto. Quanto à arquitetura escolar B. Lievegoed depõem: ‘A obra sacra do futuro serão os edifícios destinados às atividades pedagógicas, as escolas’. Podemos perceber mais uma vez o quão grande é a responsabilidade quando nós nos deparamos com a tarefa de projetar espaços para a infância. Sentimos o apelo de ajudar a conduzir a formação do ser humano para que ele no futuro possa dar direção e sentido em suas obrigações e agir em liberdade no caminho que a vida lhe traça.

 

 

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